Formado em Engenharia Química, com estudos desenvolvidos em Harvard e doutorando em Teologia, Daniel Zatti foi nomeado para um dos ministérios mais raros da Igreja Católica
Poucos ministérios da Igreja Católica despertam tanta curiosidade quanto o do exorcismo. Cercado por histórias, filmes e crenças populares, o tema costuma ser associado a fenômenos sobrenaturais. Mas, segundo o padre Daniel D’Agnoluzzo Zatti, a realidade é bem diferente da ficção.
Nomeado pelo bispo diocesano, Dom José Gislon, para exercer o ministério do exorcismo na Diocese de Caxias do Sul, o sacerdote afirma que sua principal missão não deve ser realizar exorcismos, mas ajudar no discernimento dos casos que chegam à Igreja. “O que mais fará o sacerdote exorcista? O discernimento. Muito mais do que exorcismos”, resume.
Da Engenharia Química ao ministério do exorcismo
Natural de Caxias do Sul e atualmente pároco da Igreja São Ciro, padre Daniel iniciou a graduação em Engenharia Química na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Depois decidiu ingressar no seminário, formou-se em Filosofia e Teologia, concluiu o mestrado e atualmente finaliza o doutorado, pesquisando justamente a relação entre a fé e as ciências naturais. Parte dos estudos foi desenvolvida nos Estados Unidos, por meio de um vínculo com o Boston College, incluindo pesquisas realizadas na Universidade de Harvard.
Segundo o sacerdote, o convite feito por Dom José levou em conta sua trajetória acadêmica. Pesquisador da relação entre teologia e ciências naturais, o padre afirma que essa abordagem dialoga diretamente com a forma como a Igreja conduz o discernimento dos casos. “A Igreja Católica, quando trata desse tema do exorcismo, trata com muita seriedade e, no seu discernimento, sempre vai contar com profissionais, sobretudo da área médica, da neurologia, da psicologia e da psiquiatria”, diz.
Um ministério raro
A nomeação foi oficializada por provisão assinada pelo bispo diocesano em 6 de julho. A Diocese de Caxias do Sul confirmou que Daniel Zatti é o primeiro padre oficialmente nomeado para exercer o ministério do exorcismo. Há relatos de sacerdotes que desempenharam essa missão em ocasiões específicas ao longo da história, mas nunca havia sido feita uma designação formal de um padre como referência permanente para essa função.
Embora o sacerdote seja o responsável pelo atendimento, na tradição católica, o bispo é o exorcista por excelência da diocese. Cabe a ele autorizar a celebração do rito e nomear padres para exercer esse ministério em seu nome. Os escolhidos precisam reunir características como prudência, sólida formação doutrinária, equilíbrio e reconhecida vida espiritual.
No Rio Grande do Sul, estima-se que apenas cerca de dez sacerdotes exerçam oficialmente essa missão.
“A Igreja ensina e Hollywood distorce”
Durante a entrevista, o padre também falou sobre a imagem construída pelo cinema em torno do exorcismo. Para ele, muitas produções exageram situações e acabam criando uma percepção distante da realidade vivida pela Igreja. “A Igreja ensina e Hollywood distorce”, resume o sacerdote.
Ele reforça que o exorcismo é um ministério discreto e pouco frequente. “É um ministério de misericórdia, mas é um ministério raro”, afirma.
O que faz, um padre exorcista?
Ao contrário do que costuma aparecer no cinema, a rotina de um padre exorcista está muito mais ligada à escuta do que aos rituais.
Segundo padre Daniel, cerca de 97% das pessoas que procuram esse atendimento não apresentam um caso de possessão. Na maioria das situações, o sofrimento tem origem emocional, psicológica ou espiritual e exige acolhimento e orientação, além do acompanhamento de profissionais da saúde.
O processo começa com uma triagem. A orientação é que o fiel procure inicialmente o pároco da comunidade. Se houver necessidade de um discernimento mais aprofundado, o caso é encaminhado ao ministério do exorcismo. Antes de qualquer decisão, a Igreja busca descartar causas clínicas com o auxílio de médicos, neurologistas, psicólogos e psiquiatras.
“Esse ministério responde a uma procura. Ele não quer responder a uma ânsia por superstições ou por um sobrenaturalismo, mas vem como resposta a uma demanda crescente por pessoas que precisam ser ouvidas”, explica o padre.
Como buscar atendimento
Quem acredita precisar de orientação deve procurar inicialmente o padre da comunidade onde participa. Caso seja necessário, o pároco pode encaminhar o atendimento ao ministério do exorcismo.
A Diocese de Caxias do Sul também disponibiliza contato direto pelo telefone (54) 9 9999-5606 e pelo e-mail [email protected].