Entenda como funcionava o esquema que movimentou mais de R$ 100 milhões em atividades ilícitas em diversas cidades gaúchas
O Ministério Público do Rio Grande do Sul (MPRS), contabilizou até o momento cerca de mil “bovinos de papel” movimentados em pouco mais de dois anos como forma de lavagem de dinheiro por parte de uma organização criminosa que atua na Fronteira Oeste. Os investigados foram alvo da Operação Boi Fantasma, deflagrada na última terça-feira (9). Foi identificada a movimentação fictícia nas fichas de produtor rural, sem o efetivo deslocamento dos animais entre duas propriedades arrendadas pelos criminosos em Alegrete.
A investigação aponta movimentação superior a R$ 100 milhões em atividades ilícitas, inclusive lavagem de capitais com casa de apostas, com base em levantamento da Secretaria da Agricultura, Pecuária, Produção Sustentável e Irrigação (SEAPI/RS). Foram identificadas inconsistências em registros de entrada (2.535 animais) e saída (2.657), com uso de Guias de Trânsito Animal (GTAs) fictícias para ocultar valores ilícitos. Segundo o Ministério Público pelo menos mil das mais de 2,6 mil cabeças de gado foram transferidas entre as propriedades rurais, apenas nas fichas de produtor rural, sem sair do local, para dar aparência de licitude a valores que ingressavam em contas bancárias. Vistorias também identificaram divergências envolvendo bovinos e ovinos declarados e não localizados nas propriedades.
Segundo o coordenador estadual do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), promotor de Justiça Rogério Meirelles Caldas, a investigação continua para apurar o total da fraude focando na mensuração do “gado de papel” e na estrutura da organização, formada por ao menos nove núcleos, com movimentações incompatíveis com a capacidade das propriedades. O esquema, ativo desde 2023, utilizava a pecuária para ocultar recursos do tráfico de drogas. “O Gaeco avança na análise dos dados e provas apreendidas na operação, além da reconstituição contábil das transações, até o oferecimento da denúncia à Justiça”, diz Rogério Caldas. A apuração segue e será ampliada para identificar outros produtores que utilizavam o mesmo método.
OPERAÇÃO BOI FANTASMA
Deflagrada na terça-feira, a operação desarticulou o esquema de lavagem de dinheiro do tráfico com uso de propriedades rurais arrendadas e emissão de GTAs fictícias. As ordens foram cumpridas em Alegrete, Quaraí, Pelotas, Capão do Leão, Itaqui, Canoas e São Leopoldo, além de Palhoça e Joinville (SC), e em presídios de São Gabriel, Uruguaiana e Cachoeira do Sul.
Ao todo, foram nove prisões (oito preventivas e um flagrante). Também foram apreendidos 46 celulares, oito notebooks, R$ 36,9 mil em espécie, duas armas, dois veículos e drogas, material que será analisado na sequência das investigações.
