Medida prevê reorganização de agendas, reforço no contato com pacientes e possibilidade de cancelamento de vagas
A rede pública de saúde de Caxias do Sul enfrenta um problema silencioso, mas com impacto direto no atendimento da população: o alto índice de faltas em consultas e exames especializados. Dados levantados pela própria Secretaria Municipal da Saúde mostram que, em alguns serviços, mais de um terço dos pacientes não comparece aos atendimentos agendados — cenário que contribui para o aumento das filas e desperdício de recursos públicos.
Um dos casos mais críticos está na área de saúde mental. No Centro de Atenção Integral à Saúde Mental (Cais Mental), o índice de ausência chega a 36%, o mais elevado entre os serviços analisados. O dado chama atenção porque contrasta com a alta demanda reprimida no setor — conforme já divulgado pelo município, milhares de pessoas aguardam por atendimento em especialidades como psiquiatria e psicoterapia.
O problema, no entanto, não se restringe a um único serviço. Em clínicas conveniadas e estruturas hospitalares, os índices também são significativos. No Hospital Geral, por exemplo, foram mais de 6 mil faltas registradas em 2025. Já no Hospital Pompeia, o número passa de 4,5 mil. Situação semelhante ocorre no Hospital do Círculo, além de clínicas de fisioterapia, radiologia e odontologia, onde os índices variam entre 15% e 28%.
Na prática, cada ausência representa uma vaga que deixa de ser utilizada — e que dificilmente é preenchida em tempo hábil. Em muitos casos, trata-se de serviços já contratados ou estruturados, o que significa que o custo permanece, mesmo sem atendimento efetivo. O resultado é um efeito em cadeia: filas mais longas, atraso no diagnóstico e tratamento, além de impacto direto na gestão dos recursos públicos.
Diante desse cenário, a Prefeitura passou a implementar um plano para tentar reduzir o absenteísmo. A estratégia inclui reforço na comunicação com os pacientes — com tentativas de contato antes das consultas — e a reorganização do fluxo de atendimento. Pela nova lógica, quem faltar precisará retornar à unidade básica de saúde para nova avaliação e reingressar na fila, conforme critérios clínicos.
A proposta, segundo o município, não tem caráter punitivo, mas busca otimizar o uso das vagas disponíveis. Ainda assim, o desafio vai além da gestão. Especialistas da área apontam que fatores como dificuldade de deslocamento, horários incompatíveis, esquecimento e até a falta de compreensão sobre a importância do atendimento podem influenciar diretamente nos índices de ausência.
Enquanto isso, os números evidenciam um paradoxo: ao mesmo tempo em que milhares de pessoas aguardam por consultas e exames, uma parcela significativa das vagas ofertadas não é aproveitada. Um desequilíbrio que pressiona o sistema de saúde e expõe a necessidade de soluções que vão além da ampliação da oferta — passando também pelo engajamento dos próprios usuários.