O bombeiro atendeu à ocorrência que resultou na morte de duas pessoas sem saber que uma delas era seu próprio filho
Neste domingo (9), Dia dos Pais, a Rádio Solaris conta a história de Adão de Campos, de 56 anos, que é pedreiro e atua como bombeiro voluntário no Serviço Civil Auxiliar de Bombeiros (SCAB) de Antônio Prado desde 2019. Ele é pai de Uender de Oliveira Luis Campos e no dia 19 de dezembro de 2020 atendeu a uma ocorrência que marcaria sua trajetória profissional e sua vida pessoal.
Adão relembra que seu filho tinha 23 anos na época, morava em Vacaria com a avó e eles haviam combinado que no sábado o pai se deslocaria até lá para almoçar com ele. Na sexta-feira, porém, Uender e um amigo decidiram ir a uma festa em São Marcos, fato que Adão desconhecia. Na manhã de sábado, os dois retornavam para casa em um Prisma e, por volta das 6h, colidiram frontalmente contra um caminhão-tanque, próximo ao km 116 da ERS-122, em Antônio Prado. O acidente foi fatal para os dois jovens.
Sem saber do ocorrido, Adão seguia sua rotina normalmente quando recebeu, no grupo do quartel, o chamado para atender uma ocorrência com duas vítimas fatais. Ele comenta que a colega que estava de plantão havia ingressado na corporação há apenas uma semana e, por isso, decidiu se deslocar para dar apoio a ela e ao condutor da ambulância.
Ao chegar ao local, as vítimas já haviam sido retiradas do veículo e estavam cobertas sobre a pista. Nem ele, nem seus colegas, sabiam ainda a identidade delas. “Cheguei ali e fui ajudar a sinalizar o trânsito, enquanto minha colega ficou resguardando as vítimas para que o vento não levantasse a cobertura sobre seus corpos.”
Segundo ele conta, o carro que era do amigo havia sido comprado recentemente e portanto não foi reconhecido por ele e durante o atendimento da ocorrência os documentos ainda não haviam sido encontrados. Ele permaneceu no local até a chegada da Polícia Rodoviária Estadual (PRE), que, após realizar o levantamento da ocorrência, o liberou para retornar ao quartel. “Cheguei, deixei a viatura e fui para casa. Tomei um banho e segui para Vacaria, onde iria almoçar com meu filho”, conta.
Ao chegar à cidade, recebeu uma mensagem de um colega no grupo da corporação com a foto e a identificação das vítimas. Foi naquele momento que o bombeiro descobriu que havia atendido a ocorrência envolvendo o próprio filho. “Aquilo que eu vi ali corta a gente, mas fiquei esperando mais informações. Na sequência, a namorada dele me ligou e disse que havia acontecido um acidente com o Uender e que ele tinha falecido. Aí eu respondi que também havia estado lá”, comenta.
O pai acredita que estar lá naquele momento foi algo do destino. “Ninguém está livre, mas tu nunca espera que vai acontecer contigo. Nesse momento tu fica ”sem os braços” mesmo estando acostumado a atuar em incêndios e resgates com pessoas adultas e crianças já sente um “nó na garganta” e isso acaba com a gente imagina ser alguém da nossa família”. Uendel era o único filho do bombeiro e foi sepultado no Cemitério São Francisco, em Vacaria, cidade onde nasceu.


Relembre o caso: Duas pessoas morrem em acidente na Serra das Antas, em Antônio Prado
Mesmo após a fatalidade, Adão encontrou forças para seguir em frente e decidiu não se afastar da corporação. Hoje, cinco anos após a perda do filho, continua salvando vidas. “O acidente aconteceu no dia 19 de dezembro e, desde que entrei nos bombeiros, atuo como Papai Noel. Como já tínhamos nos programado para essa ação, quando chegou o dia 24 de dezembro eu estava lá, fazendo a alegria da criançada”, relembra.
Adão segue ativo no SCAB, cumprindo plantões de 12 e 24 horas. Mesmo quando não está de serviço, costuma passar no quartel para ver e conversar com os colegas. “Nunca me afastei do quartel e já falei para o nosso comandante que, enquanto eu tiver forças para atuar no resgate e em prol da comunidade, estarei disponível”, finaliza.