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Uma história que vai além da vida

Escrito por em julho 24, 2021

A história aconteceu em 1988

Dia 25 de julho é dia do motorista, dia de todos os profissionais que possuem Carteira Nacional da Habilitação – CNH. Mas nossa história hoje é do motorista caminhoneiro. Relatamos a seguir um fato que envolveu três amigos caminhoneiros de Antônio Prado, Dorval Restelato, Geraldo Fochesatto e Vitorino (*nome fictício nós não conseguimos contato com os familiares, já que o mesmo é falecido). Resolvemos colocar como título “Amor além da vida”, você vai entender o por que e, talvez até lembrar dessa fato, após a leitura.

Vamos lá…

Amigos além da vida

Muitas são as palavras que podem ser ditas sobre amigos. Muitas são as perguntas também.

Qual é a definição de amigo? O que dá o direito a você de se tornar amigo de alguém ou o que qualifica você para ser amigo? O que é a amizade? Essas são algumas perguntas.

Em um sentido geral, amizade é algo que nem sempre se define em palavras, e a história que vamos retratar prova isso, uma amizade de três caminhoneiros que foi além da vida.

Não temos a data do início da amizade, é provável que seja desde a adolescência, mas o ápice foi no dia 09 de abril de 1988.

Em plena safra de soja na região do Mato Grosso, as horas de sono dos caminhoneiros são reduzidas, sua jornada começa antes do raiar do sol. Um grupo de caminhoneiros que passava pela BR 267, próximo ao entroncamento com a BR 163, cidade de Nova Alvorada do Sul, Mato Grosso do Sul, reconheceram um caminhão Scania 112 parado no pátio do Posto 210.

Tratava-se do caminhão de Dorval Restelatto, conhecido pelo empenho e trabalho, às nove horas da manhã, de cortinas fechadas, chamou a atenção dos amigos Vitorino*, Geraldo Fochesatto e seu filho Valdecir. Preocupados com o amigo, bateram na porta da cabine uma ou duas vezes, não obtiveram resposta e a preocupação aumentou. Com uma chave de outro caminhão, conseguiram abrir a porta. Foi um misto de espanto e tristeza, Dorval estava morto.

De imediato, Geraldo sugeriu para Vitorino que desengatassem a carreta e trouxessem o corpo para Antônio Prado. Houve a preocupação dos companheiros, pois era algo ilegal que iriam fazer. Decidiram entrar em contato com funerárias das cidades da região para providenciar a remoção do corpo. A resposta foi fria e arrasadora por parte dos agentes funerários, “Deixa o corpo lá que a tarde nós buscamos”.

Retornando ao caminhão, junto ao corpo do amigo, Geraldo reforçou a ideia de trazerem Dorval no caminhão e disse para Vitorino: “Se tu me acompanhas nós vamos embora com o corpo assim”. O amigo hesitou um pouco, mas, abraçou a ideia. Valdecir ficou com a responsabilidade de permanecer no posto e cuidar dos caminhões.

Era preciso antes avisar a família, mas não queriam ser os portadores da notícia para a esposa. Tiveram a ideia de ligar para Laureano Fortuna, corretor de seguros, homem conhecido na cidade. Além do comunicado da morte de Dorval, expuseram o plano de trazer o corpo para o Rio Grande do Sul. “Vocês são loucos, vão prender vocês pelo caminho”, disse Laureano. De pronto Vitorino respondeu: “Não Laureano, é impossível deixar o corpo do nosso amigo aqui e seguir viagem, vamos desengatar o cavalo e descer com ele, vai e avisa a família”. Decidiram avisar também o amigo advogado da cidade que, caso necessitasse, já estaria a par do assunto.

Para iniciar a viagem, mantiveram Dorval sobre a cama do caminhão, como se estivesse dormindo, e cobriram com um cobertor. Era pouco antes das 11h da manhã quando o trio deixou o posto e seguiu rumo ao Rio Grande do Sul.

E foi assim que começou a aventura da volta, os três amigos teriam que percorrer no menor tempo possível os quase 1.300 quilômetros até Vacaria. Optaram pelo trajeto vindo por Cascavel, no Paraná, para evitar o grande movimento de caminhões pela rodovia que leva a São Paulo.

Enquanto isso, em Antônio Prado, Laureano Fortuna e Mari Dalla Costa foram até a casa da esposa de Dorval, Nair Fochesatto Restelatto, para dar a notícia.

Nair conta que, quando viu o Laureano, já pressentiu que a notícia não era coisa boa. Em um primeiro momento o mensageiro disse para a mulher que ela precisaria ir até o escritório para assinar alguns papeis, não queria falar em frente às duas filhas do casal Glaucia, de 12 anos e Roselana, de oito.

A notícia caiu como uma bomba sobre a mulher, mas essa era a realidade e, as crianças precisavam saber.

O amigo advogado e Fortuna começaram a traçar as ações que teriam que ser tomadas caso a dupla fosse parada na estrada e a polícia viesse a descobrir o homem morto no caminhão. Afinal, estavam preocupados, pois achavam que era certo que seriam abordados em alguma fiscalização e que seriam presos por estar transportando um cadáver. Também deixaram em alerta o proprietário de uma funerária de Antônio Prado para que esperasse a dupla em Vacaria. Era preciso fazer um exame para comprovar a causa da morte para depois sepultar Dorval.

A passagem pelos postos policiais era tensa, medo de que em algum lugar, fossem parados. As paradas para refeições eram rápidas. Muitas vezes era preciso segurar o corpo para que não viesse para frente, mas com o objetivo em mente, os amigos seguiram com a aventura.

Já à noite, chegando ao estado do Paraná, uma blitz da Polícia Federal na cidade de Santo Antônio do Sudoeste surpreendeu os amigos. Policiais armados na estrada mandaram que o caminhão encostasse, Geraldo era o motorista. Vitorino desceu do caminhão e foi conversar com os guardas, enquanto um deles foi até a porta do motorista conversar com Geraldo.

“Na hora não sabia o que dizer, então a primeira coisa que me veio à cabeça foi dizer que estávamos trabalhando no transporte de soja e o nosso amigo passou mal e iriamos levá-lo para casa”, disse Geraldo ao policial.

O guarda subiu no estribo do caminhão e, com uma lanterna, olhou o interior, erguendo o cobertor que cobria Dorval. Foi nesse instante que os dois acharam que a viagem tinha chegado ao fim, seriam presos.

Para surpresa dos dois, o guarda desceu do caminhão e disse, “É, ele está mal mesmo, podem ir”. O alivio foi imediato e a viagem prosseguiu.

Às quatro horas de domingo, 10 de abril, o caminhão chegou em Vacaria, no local combinado, com Vitorino, Geraldo e Dorval onde o agente funerário estava aguardando, junto com dois irmãos do falecido. Passando o corpo para o carro fúnebre, esse seguiu para o IML de Caxias do Sul para autópsia. Os amigos seguiram viagem para Antônio Prado. O Advogado já havia entrado em contato com um amigo influente de Caxias do Sul para agilizar a autópsia, que foi feita logo pela manhã.

Pelo estado do corpo, o perito concluiu que o óbito teria ocorrido a pouco mais de 24 horas e a causa foi constatada como Infarto do Miocárdio.

“Não é possível o pai ser sepultado sem que as filhas e a esposa vejam ele pela última vez”, disse Dr. Clóvis Mânica para a viúva.

Com a intervenção do doutor, antes de ser liberado o corpo foi deixado numa espécie de freezer, para um congelamento, assim o velório pode ser feito com caixão aberto, mas apenas por uma hora.

Com a funerária lotada de amigos e conhecidos, o corpo chegou para ser velado às 13h.

Às 14 horas o caixão foi fechado, o corpo seguiu para a Igreja Matriz e, após para o Cemitério Municipal, onde foi sepultado.

No dia seguinte, Vitorino e Geraldo retornaram ao Mato Grosso com o laudo da causa da morte e em Nova Alvorada do Sul, pegaram o atestado de óbito do amigo.

Casados há 16 anos, Nair, na época com 35 anos e Dorval, com 46, tiveram duas filhas, Glaucia e Rocelana.

“Meu marido morreu há 45 anos, mas sua história continua viva. Até hoje encontro muitos caminhoneiros que comentam comigo que passam no posto 210 e lembram-se dele e do fato.”

Foto Ilustrativa

Pesquisa e redação Ronei Marcilio


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