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Paróquia Sagrado Coração de Jesus de Antônio Prado completa 120 anos

Escrito por em fevereiro 14, 2020

Conheça a história da Gruta de Lourdes, padroeira de Antônio Prado

Fundada um ano após a criação do município de Antônio Prado, a Paróquia Sagrado Coração de Jesus completa este ano 120 de sua criação. A cidade tem como padroeira Nossa Senhora de Lourdes. Em sua, há 91 anos, em 1929, foi construída uma gruta no alto de um morro, na estrada para Santa Libera.

A história da devoção a Nossa Senhora de Lourdes é antiga em nossa Paróquia, quiçá pela feliz coincidência de que o Município foi emancipado exatamente no dia de sua festa, isto é, 11 de fevereiro.

Conforme o Livro “Antônio Prado e Sua História” de Fidélis Dalcin Barbosa (1980), “A Gruta de Nossa Senhora de Lourdes, situada junto à cidade, num morro de 820 metros de altitude com a capela em furna natural, toda enfeixada por luxuriante vegetação regada por fonte de água cristalina, tendo nas proximidades um vasto salão de festas, (…) constitui um ponto expressivo de atração religiosa, turística e social. Construída em 1929 pela população local, em terrenos doados por Domingos Graziottin, sob a liderança de José Da Poian, Mario Graziottin, Laurindo Graziottin, Horácio Letti, Luis Golin, Calvino Palombini e Amílcar Pezzi, a Gruta era antes situada mais no alto do morro, sob os cuidados da paróquia que também construiu o novo salão de festas.”

Inicialmente a Gruta se situava no alto do morro da estrada que conduz à capela de Santa Líbera, em terrenos da Paróquia. Ainda há no local resquícios daquela gruta antiga, construída em cimento num conjunto de pedras. Acima desta gruta antiga existe uma espécie de “tanque” cujo funil desemboca ao lado do local preparado para a imagem de Nossa Senhora. Segundo relatos verbais do Padre João Bosco Luiz Schio na ocasião em que nos levou a conhecer este local, tal “tanque” servia para que as senhoras pradenses levassem água e lá derramassem, imitando, desta forma, a fonte de água da Gruta de Lourdes na França, local das aparições. Segundo o mesmo Padre Schio, era muito trabalhoso para as mulheres carregarem os baldes até o alto do morro, tendo sido um dos motivos de terem escolhido um novo local, mais próximo ao centro, e onde havia já uma fonte de água natural, para transferir o centro da devoção.

As festas da Gruta, historicamente, sempre foram um momento de ápice na religiosidade popular pradense, embora alguns costumes tenham sido abandonados nos últimos tempos. No Livro Tombo da Paróquia, conforme transcrição constante do livro “Povoadores de Antônio Prado”, de Frei Rovílio Costa (2007), consta que desde os idos da década de 1930, a principal festa Paroquial ocorria no mês de fevereiro, próximo ao dia de Nossa Senhora de Lourdes, comemorando o Sagrado Coração de Jesus.

Em 1940, conforme o referido livro de Frei Rovílio (p. 212), consta a transcrição do livro Tombo que dá maiores detalhes sobre as tradições da Festa da Gruta:

“Em 11-2-1940, celebrou-se com toda a solenidade a Festa do Sagrado Coração de Jesus e Nossa Senhora de Lourdes. Foi precedida de novena muito concorrida. Na véspera da Festa chegou e foi recebido com demonstrações de júbilo Sua Excelência Dom José Barea (Bispo de Caxias), que, acompanhado de Monsenhor De Nadal, veio assistir à nossa Festa. No dia da Festa foi dada a Bênção ao sino da Gruta, oferecido por Marino Parisotto. Foi também bento o campanário. Ambas as cerimônias foram oficiadas pelo Sr. Bispo. (…)”

Segundo o Dr. Telmo Marcanônio da Cunha, em artigo publicado no Panorama Pradense em setembro de 1993 e transcrito à página 271 do citado “Povoadores de Antônio Prado”,

A Gruta e suas procissões fazem parte essencial na formação e desenvolvimento da religiosidade no Paese Novo. O folclore de festas em grutas e procissões é imenso e variado. As atividades sociais dos paroquianos conjugavam-se nestes dois acontecimentos primordiais e inusitados da fé católica.”

Na segunda metade do século XX, a Festa da Gruta passou a ter duas edições, uma em fevereiro/março em honra a Nossa Senhora de Lourdes e outra em outubro em honra a Nossa Senhora do Rosário.

Pelas décadas de 1980 e 1990, recorda-se os cartazes da festa que eram distribuídos pelo comércio local e regional onde constava toda a “Programação Religiosa” e a “Programação Social”. Curiosamente, todas as funções eram descritas no cartaz, na qual estava o nome dos responsáveis por cada serviço: ofertas, churrasco, docinhos, roleta, cavalinhos etc.

Nesta época, a festa se desenrolava da seguinte maneira. A “Programação Religiosa” era constituída de um tríduo preparatório, sendo que na quinta-feira era o dia de todas as capelinhas e famílias do lado esquerdo da Igreja Matriz (lado da Gruta) irem em procissão até a Igreja Matriz. Na sexta-feira, segundo dia do tríduo, era a vez das capelinhas do lado direito da Igreja Matriz, que saiam em procissão da Igrejinha de Nossa Senhora de Fátima na entrada da cidade, descendo a Avenida e, em cada esquina, tomando as capelinhas e povo da região reunidos, os quais enchiam a Avenida Valdomiro Bocchese, virando na praça até a Igreja Matriz. Ali eram saudadas e recepcionadas pelo Padre Schio e na entrada da igreja, ao longo do corredor central, duas filas de crianças com flores saudavam a passagem das capelinhas e da veneranda imagem de Nossa Senhora. O sábado era dedicado à grande procissão luminosa que iniciava no cair da tarde saindo da Igreja e subindo em direção à Gruta, com tradicionais duas paradas – no Hospital São José e na Casa de Pedra. Tais procissões eram concorridíssimas, contando com milhares de fiéis. Recordo que se estava quase na Casa de Pedra subindo o morro e ainda se via gente no final da quadra do Hospital. A procissão chegava na Gruta ao som do toque dos sinos e hinos de louvor e lá continuava a Missa, sempre presidida por um pregador especialmente convidado. No domingo pela manhã ocorria a Missa solene no recinto da Gruta.

O “Programa Social” era coordenado pelos festeiros previamente escolhidos. No sábado anterior era feita a “questa”, a coleta de mantimentos para auxiliar na festa. Todos os alimentos doados (recordo uma infinidade de latas de azeite, sacos de farinha etc) eram estocados no salão para a preparação das comidas. Na quarta-feira era o dia em que se matavam e preparavam as galinhas. Quinta-feira era o dia de fazer agnolinis no salão. O Padre Schio começava cedo convocando pelo alto-falante as senhoras pradenses a ajudarem. Chegou uma época em que passava até mesmo um veículo arrecadando as voluntárias. Nós, crianças, participávamos disse carregando as bandejas com as tiras de massa e colocando os recheios nos quadradinhos e, quando autorizados, aprendendo a fechar o famoso agnolini. A confecção dos agnolinis era também um momento de confraternização em que se rezava, cantava, conversava etc. Caso o volume não fosse suficiente, na sexta-feira retomava-se até ter o peso de agnolinis suficientes para a sopa de domingo. Na sexta-feira à noite, após a Missa ocorria o Bingo no salão. No sábado, após a procissão, uma grande Quermesse com inesquecíveis cachorros-quentes, batatinha frita, chopp, brincadeiras de cavalinhos, latas, sorteio da roleta com a premiação de frangos cozidos, leitões etc. Era uma noite festiva de confraternização, sempre animada por algum conjunto musical. No domingo ao meio-dia o tradicional almoço de encerramento tendo como cardápio a sopa de agnolini, lesso, pien, menarosto (galeto assado por diversas horas em roletas gigantes banhados a azeite cujo resultado fritava as polentas que ficavam sob eles) e churrasco. Na sobremesa, café com biscoito e docinhos diversos, destacando-se os caramelados da dona Inês Zanella. Após o almoço o sorteio do rifão e encerramento da Festa. Todos os dias de festa eram acompanhados de manhã, meio-dia e noite pelas músicas festivas nos alto-falantes da Igreja e convites insistentes do Padre João Schio. Geralmente havia também uma grande ‘Rifa’ com bons prêmios, principalmente veículos.

Com o tempo, muitos destes detalhes, por motivos diversos, foram sendo abandonados, por mudanças de ideias, disponibilidade, modernidade, porém, a Festa da Gruta continua sendo um momento de confraternização religiosa e social que marca a nossa cidade.

Texto e Imagens Mauricio Quini


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