{"id":78110,"date":"2022-05-06T08:00:49","date_gmt":"2022-05-06T11:00:49","guid":{"rendered":"https:\/\/radiosolaris.com.br\/beta\/?p=78110"},"modified":"2022-05-06T09:23:53","modified_gmt":"2022-05-06T12:23:53","slug":"na-contramao-da-vida-a-historia-da-menina-que-superou-o-abandono-e-hoje-e-psicologa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/radiosolaris.com.br\/beta\/na-contramao-da-vida-a-historia-da-menina-que-superou-o-abandono-e-hoje-e-psicologa\/","title":{"rendered":"Na contram\u00e3o da vida: a hist\u00f3ria da menina que superou o abandono e hoje \u00e9 psic\u00f3loga"},"content":{"rendered":"\n<h4 id=\"a-esperanca-de-ter-um-sentido-maior-para-a-vida\" class=\"wp-block-heading\">A esperan\u00e7a de ter um sentido maior para a vida<\/h4>\n\n\n\n<p>A hist\u00f3ria que contaremos a seguir parece ter sido retirada de um roteiro de filme de drama, mas n\u00e3o \u00e9. Os relatos s\u00e3o ver\u00eddicos de quem saiu de uma inf\u00e2ncia com resqu\u00edcios de terror para a realiza\u00e7\u00e3o do desejo de maternidade e encontrou um sentido para a vida.<\/p>\n\n\n\n<p>Tr\u00eas dos principais protagonistas hoje vivem em Ant\u00f4nio Prado.<\/p>\n\n\n\n<p>Nascida em Capinzal &#8211; SC, em 10 de junho de 1977, Solange Pasinatto Carra, hoje prestes a fazer 45 anos, recebeu a nossa reportagem em seu consult\u00f3rio psicol\u00f3gico e contou sua hist\u00f3ria.<\/p>\n\n\n\n<p>Filha biol\u00f3gica de um casal desestruturado, uma m\u00e3e que era conhecida na cidade como &#8220;Andarilha&#8221;, seu nome era Maria, e de um pai ausente, viveu momentos de horror at\u00e9 os 7 anos, tinha um irm\u00e3o mais velho. &#8220;N\u00f3s viv\u00edamos numa condi\u00e7\u00e3o bem desumana e de extrema viol\u00eancia, ela descontava sua revolta nos filhos, nos batia com extrema viol\u00eancia&#8221;, conta.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse tempo a fam\u00edlia morava no interior, em meio a uma mata e pr\u00f3ximo a um rio. A moradia era um pequeno coberto com algumas t\u00e1buas ao redor. Todos dormiam no ch\u00e3o, com alguns cobertores sujos.<\/p>\n\n\n\n<p>Muitas vezes Solange e o irm\u00e3o ficavam sozinhos por dias, a m\u00e3e saia de casa, sempre sem rumo e o pai tamb\u00e9m quase nunca estava presente, lembra muito pouco dele. Outras vezes tinham que fugir de casa e passavam a noite escondidos no mato, tamanha era a viol\u00eancia da m\u00e3e. No mato, para se proteger e passar a noite se cobriam com grandes folhas, retornando para casa no dia seguinte. Outras vezes iam para a cidade e ficavam na rua, o irm\u00e3o vendia balas e Solange o acompanhava. Lembra que quando chegava \u00e0 tardinha ela e o irm\u00e3o dormiam dentro de caixas de papel\u00e3o usadas para embalar geladeiras. A noite um senhor levava a eles comida e os cobria com seu pr\u00f3prio casaco. Nesse tempo conhecemos a realidade da rua. &#8220;At\u00e9 hoje eu n\u00e3o entendo como ningu\u00e9m viu e recolheu aquelas crian\u00e7as que estavam ali&#8221;. Solange conta que toda vez que via um casal na rua, com uma crian\u00e7a perguntava ao irm\u00e3o: &#8220;Ser\u00e1 que um dia a gente vai ter um colo? Ser\u00e1 que um dia a gente vai ter uma fam\u00edlia? Eu via aquelas crian\u00e7as no colo daquelas m\u00e3es e dizia que meu sonho era ter uma fam\u00edlia, ter um colinho&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Nessas andan\u00e7as pelas ruas a genitora acabou engravidando, Solange n\u00e3o lembra quantos anos tinha, mas lembra perfeitamente o que aconteceu. Alguns dias ap\u00f3s parir levou os filhos para se banharem no rio. A crian\u00e7a rec\u00e9m-nascida chorava muito e acabou sendo espancada. Para a surpresa dos irm\u00e3os a m\u00e3e olhou para eles e disse: &#8220;Eu vou fazer com o beb\u00ea o que eu devia ter feito com voc\u00eas, por que voc\u00eas n\u00e3o deviam ter nascido&#8221;. Depois disso arremessou a crian\u00e7a na \u00e1gua, que foi levada pela correnteza.<\/p>\n\n\n\n<p>Os dias foram passando e a m\u00e3e sempre repetia a mesma coisa, que iria fazer com eles o que fez com o beb\u00ea.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Ela matou dois filhos na nossa frente. Algum tempo depois ela engravidou e fez o mesmo com o outro beb\u00ea, jogou no rio. Eu e meu irm\u00e3o fic\u00e1vamos apavorados, n\u00e3o tinha ningu\u00e9m por n\u00f3s&#8221;, conta Solange em meio ao choro.<\/p>\n\n\n\n<p>O come\u00e7o da mudan\u00e7a de vida<\/p>\n\n\n\n<p>O destino de Solange come\u00e7ou a ser tra\u00e7ado 16 anos antes de seu nascimento, quando os que seriam pais adotivos casaram. Era 27 de maio de 1961 quando Alcides e Etelvina Pasinatto casaram em cerim\u00f4nia na Capela Santo Ant\u00f4nio, Linha Gomercindo, Ant\u00f4nio Prado.<\/p>\n\n\n\n<p>No ano seguinte o jovem casal resolveu buscar novas possibilidades e se mudaram para Erval Velho &#8211; SC, a poucos quil\u00f4metros de Capinzal.&nbsp; L\u00e1 instalados adquiriram uma propriedade no interior e come\u00e7aram a trabalhar na lavoura. Mais tarde o casal descobriu que Etelvina n\u00e3o poderia ter filhos. Com o passar do tempo sentiram a necessidade de uma companhia, ent\u00e3o decidiram que iriam adotar uma crian\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>Foi atrav\u00e9s de uma irm\u00e3 da m\u00e3e biol\u00f3gica Maria que o casal Pasinatto ficou sabendo da situa\u00e7\u00e3o das crian\u00e7as. Resolveram ent\u00e3o que queriam adotar o menino, irm\u00e3o de Solange. Surgiu ent\u00e3o o primeiro contratempo, a m\u00e3e biol\u00f3gica queria entregar a menina e n\u00e3o o menino.<\/p>\n\n\n\n<p>O casal acabou concordando e ent\u00e3o, uma das poucas vezes que o pai estava em casa, levou Solange a cavalo at\u00e9 Erval Velho. Era uma tarde de chuva, meu pai adotivo havia ido para a cidade, a m\u00e3e adotiva estava em casa costurando. &#8220;Quando o pai chegou simplesmente me largou l\u00e1 e sem falar nada foi embora. A m\u00e3e conta que eu sentei do ladinho dela e fiquei observando seu trabalho. Quando o pai adotivo chegou come\u00e7ou a conversar comigo, com carisma foi me conquistando, come\u00e7ou a interagir comigo, me ofereceu balas&#8221;, recorda. Solange lembra tamb\u00e9m que em nem um momento pediu pelo irm\u00e3o e nem pelos pais biol\u00f3gicos. &#8220;A partir dali eu comecei a descobrir realmente o que era ter um lar, uma fam\u00edlia&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando tudo parecia perfeito a m\u00e3e biol\u00f3gica come\u00e7ou a incomodar o casal e continuou por v\u00e1rios anos, mesmo ap\u00f3s todos os tramites de ado\u00e7\u00e3o. A Andarilha ia at\u00e9 a casa dizendo que queria levar Solange de volta com ela. &#8220;Ela fazia esc\u00e2ndalos, assim desenvolvi dentro de mim muitos medos. Ela dizia que se n\u00e3o me levasse embora eles tamb\u00e9m n\u00e3o iriam ficar comigo, pois ela daria um jeito de me matar. Ela acabava me arrancando de l\u00e1 me deixando literalmente nua no meio da rua e me levava embora enrolada em algum pano at\u00e9 o juiz expedir um mandado restitutivo&#8221;. Segundo Solange isso durou tr\u00eas anos. Mesmo assim a Maria continuou indo at\u00e9 a casa do casal, mas o pai adotivo \u00e0 expulsava de l\u00e1.<\/p>\n\n\n\n<p>Solange lembra que nas festas de Natal e Final de Ano a m\u00e3e biol\u00f3gica ia at\u00e9 a casa com bolachas enfeitadas e a m\u00e3e adotiva dizia: &#8220;N\u00e3o come, as bolachas devem estar envenenadas&#8221;. Se voltava para a mulher e dizia: &#8220;Voc\u00ea veio fazer o que aqui, veio fazer alguma coisa?&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Muitas vezes ela trazia consigo uma bolsa com roupas na inten\u00e7\u00e3o de ficar, mas n\u00e3o conseguia, pois era muito perturbada. Ap\u00f3s um tempo e uma medida protetiva, as visitas pararam.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Foi muito bom, eu tinha comida, uma cama, tinha com quem conversar, eu fui me descobrindo, pois at\u00e9 ali eu era um bicho do mato. N\u00e3o estudava, n\u00e3o queria saber de ningu\u00e9m, s\u00f3 me escondia, tinha medo de tudo&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Nessa \u00e9poca, Solange ajudava os pais adotivos com os trabalhos em casa. Frequentava a igreja da comunidade e foi ali que come\u00e7ou a encontrar algo de bom, na religi\u00e3o, na f\u00e9.<\/p>\n\n\n\n<p>Com oito anos Solange come\u00e7ou a estudar. &#8220;Eu tinha problemas, n\u00e3o conversava com os colegas e professores, meus pais eram chamados para conversar, eu tinha um trauma muito grande&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Devido a todos os problemas vivenciados Solange come\u00e7ou a ficar doente, come\u00e7ou a sentir dores de barriga, de cabe\u00e7a, estava revoltada, mas mesmo assim trabalhava em casa. Come\u00e7ou, junto com a m\u00e3e a ajudar na comunidade e come\u00e7ou a gostar daquilo.<\/p>\n\n\n\n<p>Na faixa dos 10 aos 11 anos Solange come\u00e7ou a se soltar mais, j\u00e1 lia, interagia com os parentes. Come\u00e7ou a assentir afeto, amor que despertou nela coisas boas nas pessoas e na comunidade. &#8220;Eu gostava daquilo, comecei a ter amizades e foi indo, mas sempre doente, sempre em hospitais&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Naquela \u00e9poca n\u00e3o era comum acompanhamento psicol\u00f3gico, eram feitos tratamentos \u00e0 base de medicamentos apenas. Solange sofria com desmaios frequentes, epilepsias.<\/p>\n\n\n\n<p>Com 12 anos come\u00e7ou a estudar em uma escola na cidade, para isso fazia dois quase dois quil\u00f4metros a p\u00e9 para pegar a Kombi com os demais alunos.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Nessa \u00e9poca eu era alvo de chacota, ca\u00e7oavam de mim, pois eu era da col\u00f4nia, por que eu era adotada, diziam que eu era um bichinho do mato. Ent\u00e3o eu n\u00e3o me relacionava com praticamente ningu\u00e9m, ficava sempre na minha. Mas eu era uma boa aluna, gostava de ouvir os professores, fazer as coisas&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Isso foi despertando na menina o interesse pela leitura e pelos estudos. &#8220;Meu pai sempre dizia:<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; \u201cEstuda que um dia a gente vai morar na cidade e a\u00ed voc\u00ea vai fazer faculdade e vai ser o que voc\u00ea quiser de profiss\u00e3o.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Logo que foi adotada Solange e a fam\u00edlia vinham a cada dois anos visitar os parentes em Ant\u00f4nio Prado, geralmente na P\u00e1scoa, ela relata que gostava de vir, se sentia como se aqui fosse seu lugar. &#8220;Quando a gente se encontrava com os parentes eles diziam: &#8211; Olha a filha do Cide!! Eu era uma ratinha, eles me abra\u00e7avam, me davam colo&#8221;. Com essas atitudes Solange sentia o afeto, o carinho da fam\u00edlia, vinham para a festa na linha Gomercindo, iam visitar as fam\u00edlias e brincava com os primos. Mas a volta para a realidade em que vivia era necess\u00e1rio, e sempre era com muita choradeira por parte de Solange.<\/p>\n\n\n\n<p>Do ensino prim\u00e1rio Solange passou para o ensino m\u00e9dio, tamb\u00e9m se fechava, n\u00e3o tinha com quem conversar, pois era tachada de colona, adotada, era motivo de chacota.<\/p>\n\n\n\n<p>Por ser uma boa aluna, conseguia fazer alguns amigos por interesse, para passar cola fazer os trabalhos, assim, de certa forma, foi conquistando alguns.&nbsp; Mesmo assim nessa \u00e9poca vivia doente, hospitalizada, tinha aquela sensa\u00e7\u00e3o de sempre estar sozinha, de ter um vazio.<\/p>\n\n\n\n<p>De certa forma tinha privil\u00e9gio por ser a \u00fanica menina no transporte escolar da comunidade at\u00e9 a cidade. O motorista sempre deixava que ela sentasse na frente, mas isso tinha um objetivo escuso. Certa vez o transporte foi feito com uma Kombi de carroceria. Todos os meninos foram na ca\u00e7amba, Solange sentou na frente com o motorista. Al\u00e9m do preconceito, nesse dia sofreu tamb\u00e9m ass\u00e9dio sexual, come\u00e7ou a ser molestada, criando assim mais um trauma. &#8220;Eu mal sabia o que estava acontecendo, n\u00e3o conseguia contar para meus pais. Eu era uma adolescente bem vulner\u00e1vel, ficava exposta para v\u00e1rios riscos&#8221;. Isso fez com que se fechasse cada vez mais.<\/p>\n\n\n\n<p>Ap\u00f3s o final do ensino m\u00e9dio ainda continuava bem doente, se questionava muito o porqu\u00ea de tudo aquilo, come\u00e7ando a se revoltar, se perguntava: &#8221; Por que minha m\u00e3e n\u00e3o me quis mais, por que era exclu\u00edda, rejeitada?&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Para Solange, o Dia das M\u00e3es era de revolta, pensava: &#8221; Imagina, como comemorar o dia das m\u00e3es, m\u00e3e n\u00e3o faz o que a minha fez comigo.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse meio tempo come\u00e7ou a entrar em conflito com a m\u00e3e adotiva, pois tinha por dentro uma imagem p\u00e9ssima de m\u00e3e. Aquilo come\u00e7ou a causar mais transtornos e problemas de sa\u00fade na adolescente, que se fechou ainda mais.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao final do ensino m\u00e9dio o pai deu a not\u00edcia de que a fam\u00edlia iria voltar para o Rio Grande do Sul e Solange poderia retomar os estudos aqui. Os pais j\u00e1 tinham comprado um terreno para construir em Ant\u00f4nio Prado.<\/p>\n\n\n\n<p>Antes de partir de Santa Catarina, continuou ajudando na comunidade, nunca sa\u00eda com amigos, conversava com alguns rapazes, algumas mo\u00e7as da comunidade, mas sempre reservada, sentia algo por dentro que a queimava, n\u00e3o sabia com quem desabafar. &#8220;Meus pais s\u00f3 sabiam trabalhar, eu entendi isso mais tarde.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Meu consolo muitas vezes era sentar embaixo de uma \u00e1rvore que tinha na frente de casa e ouvir m\u00fasica, parecia que os locutores conversavam comigo. &#8220;As m\u00fasicas deixavam mensagens que tocavam minha alma, traduzindo muitas vezes, o que eu n\u00e3o conseguia traduzir, me consolavam&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>No ano que Solange completou 17 anos, isso em 1994, a fam\u00edlia se mudou para Ant\u00f4nio Prado. Junto com Solange vieram todos os seus problemas internos. Come\u00e7ou a se questionar o que iria fazer em Ant\u00f4nio Prado.<\/p>\n\n\n\n<p>At\u00e9 a constru\u00e7\u00e3o da casa a fam\u00edlia morou em um pequeno alojamento, que era de um irm\u00e3o de sua m\u00e3e, n\u00e3o queriam pagar aluguel. Solange lembra que, tamb\u00e9m nessa \u00e9poca, n\u00e3o teve os pais presentes, viviam em fun\u00e7\u00e3o de trabalho, para construir a casa.<\/p>\n\n\n\n<p>Solange ent\u00e3o, apesar de sempre ter trabalhado na ro\u00e7a, decidiu arrumar emprego em uma casa de fam\u00edlia. Come\u00e7ou ent\u00e3o a se relacionar com pessoas estranhas, o que para ela foi muito dif\u00edcil e dolorido. Come\u00e7aram novamente os problemas de sa\u00fade, como epilepsia, dores de cabe\u00e7a, tendo que deixar o emprego. Atrav\u00e9s de uma prima, conseguiu emprego em uma f\u00e1brica de cal\u00e7ados na cidade, l\u00e1 tamb\u00e9m n\u00e3o foi muito feliz. Devido as suas dores internas entrou em conflito com os colegas, com o chefe e, adoeceu cada vez mais. Acabou perdendo o emprego. Depois disso conseguiu coloca\u00e7\u00e3o em um supermercado, onde, para ocupar a cabe\u00e7a e evitar novos atritos, n\u00e3o parava, fazia de tudo, em todos os setores.<\/p>\n\n\n\n<p>Foi nesse per\u00edodo de supermercado que conheceu o atual marido, Celso Carra. &#8220;Lembro que foi num jogo de futebol em S\u00e3o Roque. Foi uma das pessoas mais maravilhosas que eu pude conhecer na vida. At\u00e9 hoje, por conta da minha f\u00e9, eu digo que foi a m\u00e3o de Deus que colocou meus pais e esse anjo, o Celso, no meu caminho, na minha vida. A gente come\u00e7ou a conversar, se conhecer e foi a\u00ed que eu vi que era o homem para ser meu esposo e o pai dos meus filhos.<\/p>\n\n\n\n<p>Nessa \u00e9poca Solange continuava com seus conflitos internos, relata que j\u00e1 n\u00e3o sabia mais quem era ela, onde estava\u201d. &#8220;Mais tarde o Celso me disse que quando me viu sentiu at\u00e9 pena de mim&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Celso e Solange come\u00e7aram um relacionamento, frequentavam alguns lugares, se relacionaram com amigos e a jovem come\u00e7ou a gostar da vida em sociedade. Mas, novamente vieram os conflitos internos com os pais adotivos. &#8220;Era porque eu precisava de alguma coisa, porque eles n\u00e3o terminavam a casa, porque eu queria sair daquele lugar. Eu n\u00e3o estava bem, comecei a projetar em todo mundo. Comecei a ter conflitos com o Celso, \u201cNesse momento foi que eu resolvi dar fim a minha vida. J\u00e1 n\u00e3o sabia mais quem eu era, estava na fase do desespero, n\u00e3o tinha mais condi\u00e7\u00f5es de viver&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o alcan\u00e7ou o objetivo e acabou internada em um hospital, em Caxias do Sul, passou pela UTI, mas conseguiu se recuperar. Quando estava no quarto, Solange conta que o Celso apareceu, quando ele abriu a porta ela perguntou: &#8220;O que tu est\u00e1 fazendo aqui? Olha a pessoa que eu sou, voc\u00ea ainda quer me ver?&#8221; De imediato Celso respondeu: &#8220;Eu sei a pessoa que tu \u00e9 e o cora\u00e7\u00e3o que tu tens. Eu sei da tua hist\u00f3ria, da tua caminhada, tu tens muita coisa pela frente e eu estou contigo, n\u00f3s vamos juntos&#8221;. Foi a partir desse encontro que come\u00e7ou uma caminhada em busca de ajuda, mesmo nos medicamentos, com um tratamento mais intenso. &#8220;Eu sabia que tinha muita luta pela frente&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Essas palavras ficaram na mem\u00f3ria de Solange e at\u00e9 os dias atuais leva em palestras que o casal profere. Salienta o quanto \u00e9 importante quando algu\u00e9m chega e diz para a pessoa aquilo que ela n\u00e3o consegue ver.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse caminho o casal encontrou muitas pessoas especiais, o que acabou atraindo ainda mais Solange no trabalho que faziam.<\/p>\n\n\n\n<p>O casal j\u00e1 estava num relacionamento firme, Celso trabalhava na col\u00f4nia e Solange morava na cidade com os pais. Prematuramente Solange engravidou. &#8220;Eu n\u00e3o estava preparada para ser m\u00e3e pois tinha toda aquela ferida dentro de mim, ainda n\u00e3o tinha cicatrizado. S\u00f3 mais tarde entendi que aquele momento era realmente para come\u00e7ar um processo de ressignifica\u00e7\u00e3o e melhorar a ferida me tornando m\u00e3e&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00f3 que Solange ainda estava fragilizada, come\u00e7ou a pensar que iria desapontar os pais com a gravidez antes do casamento. Mas, felizmente, os pais entenderam e gostaram da ideia de serem av\u00f4s.<\/p>\n\n\n\n<p>O casamento de Solange e Celso foi em outubro de 1996 e a primeira filha, Ang\u00e9lica, nasceu em mar\u00e7o de 1997. Veio a depress\u00e3o p\u00f3s-parto, n\u00e3o queria muito ver a crian\u00e7a, a bebe resistia e n\u00e3o queria pegar o peito. Juntos o casal optou em morar na col\u00f4nia, com os pais de Celso. N\u00e3o houve acerto com os sogros e Solange retornou para a cidade com os pais, durante mais dois anos. Quando Ang\u00e9lica tinha dois anos Solange estava ainda muito depressiva, n\u00e3o exercia muito bem o papel de m\u00e3e. Ent\u00e3o disse para o marido: &#8220;Quero que venha morar aqui e vamos construir algo juntos, tu precisa estar do meu lado, a nossa filha tamb\u00e9m precisa de voc\u00ea, ela est\u00e1 sempre doente em fun\u00e7\u00e3o de tudo isso&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Solange contou muito com a ajuda dos pais para cuidar da filha, vivia mais na cama, levantava alguns dias e voltava para a cama.<\/p>\n\n\n\n<p>Na cidade Celso conseguiu um emprego em uma loja de m\u00f3veis e eletrodom\u00e9sticos. Moraram um tempo com os pais, depois se mudaram para o andar debaixo e come\u00e7aram a construir seu canto. &#8220;Mesmo com o tratamento a dor era muito grande. A\u00ed pensei em ir para a igreja&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Era tarde, os pais de Solange ficaram com Ang\u00e9lica, que estava com tr\u00eas anos, e ela foi \u00e0 igreja. Conta que se ajoelhou e come\u00e7ou a chorar muito. &#8220;Eu olhava para as imagens, parei na de Santo Ant\u00f4nio, que tem uma crian\u00e7a no colo e disse, &#8211; Voc\u00ea entende o que eu estou passando? Se voc\u00ea entende o que eu estou passando me ajudem.\u201d Foi \u00e0 m\u00e3o de Deus.<\/p>\n\n\n\n<p>Solange conta que tinha um grupo de jovens na igreja, n\u00e3o sabia quem era nem de onde eram n\u00e3o sabiam o que estavam fazendo l\u00e1. Em determinado momento o grupo come\u00e7ou a cantar uma m\u00fasica que dizia assim: &#8220;Ningu\u00e9m te ama como eu, tenho esperado que viesses a mim, eu sei bem o que tem sofrido, sei tamb\u00e9m que tem chorado. Ningu\u00e9m te ama como eu!&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse momento Solange sentiu uma sensa\u00e7\u00e3o de que estavam tirando algo de dentro dela, aquelas pedras, aquele peso que sentia come\u00e7ou a sair. A partir dali come\u00e7ou a sentir algo de bom nela mesma, algo grandioso floresceu. &#8220;Pedi a Deus para me direcionar, dar um caminho para saber o que fazer da vida&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>A primeira coisa que Solange pensou foi procurar a m\u00e3e biol\u00f3gica para perdoar ela. Foi para casa, conversou com os pais e com o marido e disse: &#8220;Acho que eu preciso revisitar a minha hist\u00f3ria para poder dar um novo significado a minha vida e sarar as feridas. Vou procurar minha m\u00e3e biol\u00f3gica e pedir perd\u00e3o a ela&#8221;. Todos apoiaram a iniciativa.<\/p>\n\n\n\n<p>Buscando informa\u00e7\u00f5es de onde ela estaria, ficou sabendo que estava em um asilo na cidade de Erechim &#8211; RS, foi agendada uma viagem, junto foi o marido e o pai.<\/p>\n\n\n\n<p>Para a surpresa de todos que estavam no local aguardando, \u00e0 m\u00e3e biol\u00f3gica se aproximou e come\u00e7ou a pedir perd\u00e3o, com emo\u00e7\u00e3o dizia: &#8220;\u00c9 a Solange!! Solange, tu perdoa essa m\u00e3e? Eu n\u00e3o tinha nada para dar de comida a voc\u00eas. Perdoa essa m\u00e3e que tanto mal te fez! &#8220;Eu fui disposta a perdoar, mas ela quem me pediu perd\u00e3o. \u201cEu estava aberta, foi um encontro bem importante para cicatrizar algumas feridas, um peso muito grande saiu de mim a partir disso\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Ap\u00f3s esse fato Solange conta que come\u00e7ou a melhorar seu comportamento como m\u00e3e, a se dedicar mais no papel que recebeu.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 24 de maio de 2001 teve a segunda filha, a Luana. Nessa \u00e9poca j\u00e1 trabalhava com o marido na loja de eletrodom\u00e9sticos como vendedora, o que, segundo ela, ajudou a se desenvolver mais.<\/p>\n\n\n\n<p>Nas horas vagas fazia cursos, trabalhos volunt\u00e1rios no hospital e come\u00e7ou a despertar o interesse pela psicologia, fez esse trabalho por quatro anos.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Um dia eu li uma frase de Viktor Frankl que dizia: &#8211; Encontrei o significado da minha vida ajudando os outros a encontrar o sentido das suas vidas. Assim eu acreditei que a dor que eu vivi pudesse ajudar as outras pessoas&#8221;. Em 2016 Solange se formou em psicologia. Desde ent\u00e3o sempre buscou associar a psicologia com a espiritualidade, com os valores, com o sentido da vida. &#8220;Eu posso ter mil defeitos, mas sou um ser humano como qualquer um. Mas na ess\u00eancia somos todos iguais, e o que eu penso a respeito da vida \u00e9 que um dia ela vai perguntar: &#8211; O que eu fiz com meus sonhos e qual foi meu jeito de amar? O que eu fiz com as pessoas que no mundo v\u00e3o continuar, para que eu n\u00e3o tenha vivido \u00e0 toa e n\u00e3o seja tarde demais!&#8221; O que eu penso a respeito da vida, \u00e9 que um dia ela vai perguntar: o que \u00e9 que eu fiz com os meus sonhos e qual foi o meu jeito de amar.<\/p>\n\n\n\n<p>O que \u00e9 que eu deixei para as pessoas que no mundo v\u00e3o continuar (trecho da can\u00e7\u00e3o: Certas Coisas pra dizer de Jorge Trevisol)<\/p>\n\n\n\n<p>Me lema de vida<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Eu n\u00e3o estou aqui por acaso, eu tenho uma miss\u00e3o e precisei passar por todo esse caminho e ainda vou passar outros com certeza, para hoje estar onde estou. Isso eu s\u00f3 fui entendendo na caminhada da vida&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>O irm\u00e3o de Solange ficou algum tempo internado em uma cl\u00ednica em Ana Rech, todo o final de semana ia visit\u00e1-lo. Com o passar do tempo percebeu que a situa\u00e7\u00e3o dele estava piorando, achou que era dos medicamentos. Ent\u00e3o resolveu solicitar a sua sa\u00edda da cl\u00ednica para que ele morasse com ela em Ant\u00f4nio Prado. Ele ficou um m\u00eas na sua casa depois quis voltar para Santa Catarina para morar com a m\u00e3e, que tinha sa\u00eddo do asilo. Chegou a morar em Barrac\u00e3o &#8211; RS com o pai e a madrasta.<\/p>\n\n\n\n<p>Como a irm\u00e3 mais velha de Alcides, pai adotivo, morava por perto de onde seu irm\u00e3o estava, buscava sempre informa\u00e7\u00f5es de como ele estava. Ajudou financeiramente enviando cestas b\u00e1sicas.<\/p>\n\n\n\n<p>Atualmente o irm\u00e3o mora em Joa\u00e7aba &#8211; SC com uma tia e vive a base de medicamentos.<\/p>\n\n\n\n<p>Solange deixa uma mensagem para quem acha que n\u00e3o existe uma sa\u00edda: \u201cBusque ajuda, seja com quem for com um amigo com um familiar, ponha para fora as m\u00e1goas, converse com um profissional, busque ajuda espiritual principalmente. Da\u00ed voc\u00ea come\u00e7a a descobrir o ser humano que voc\u00ea \u00e9 por meio de sua ess\u00eancia.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>O pai biol\u00f3gico de Solange faleceu de AVC em 2016 e a m\u00e3e em m\u00e3e em 2019. Foi visitar o t\u00famulo da m\u00e3e e depositou flores, agradeceu n\u00e3o pela vida que teve, mas pela vida que lhe deu. &#8220;Meus pais, hoje, eu sei quem foram&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Os corpos dos dois beb\u00eas jogados no rio nunca foram encontrados.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-gallery has-nested-images columns-default is-cropped wp-block-gallery-1 is-layout-flex wp-block-gallery-is-layout-flex\">\n<figure class=\"wp-block-image size-large is-style-default\"><img  loading=\"lazy\"  decoding=\"async\"  width=\"544\"  height=\"391\"  data-id=\"78114\"  src=\"data:image\/png;base64,iVBORw0KGgoAAAANSUhEUgAAAAEAAAABAQMAAAAl21bKAAAAA1BMVEUAAP+KeNJXAAAAAXRSTlMAQObYZgAAAAlwSFlzAAAOxAAADsQBlSsOGwAAAApJREFUCNdjYAAAAAIAAeIhvDMAAAAASUVORK5CYII=\"  alt=\"\"  class=\"wp-image-78114 pk-lazyload\"  data-pk-sizes=\"auto\"  data-pk-src=\"https:\/\/radiosolaris.com.br\/beta\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/WhatsApp-Image-2022-05-01-at-22.21.26.jpeg\" ><\/figure>\n\n\n\n<figure 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