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Antônio Prado 121: As duas versões do confronto fatal

Escrito por em fevereiro 13, 2020

Na versão dos agricultores a manifestação era pacifica

Na sequencia da série Antônio Prado 121 anos publicamos na quarta-feira (12) parte do fato histórico ocorrido em 25 de maio de 1936. No confronto morreram três agricultores e o delegado. Confira a seguir as duas versões do fato: a dos agricultores que participaram do episódio e a versão “oficial” do prefeito da época, Oscar Hampe.

Na versão dos agricultores registrada na delegacia dois anos depois, quando se sentiram seguros, a manifestação era pacifica, queriam apenas conversar com o prefeito sobre o suposto aumento dos impostos. Nomeada uma comissão que se reuniria com o prefeito composta pelos agricultores Carlos Pastori, Erminio Denale, Antônio Busetto, Romano Riva, Abramo Maschio e Pedro Forlin.

O prefeito Oscar Hampe ao tomar conhecimento da intenção dos colonos, esteve pela manhã, no hotel onde se achavam reunidos alguns colonos, ocasião em que declarou a Carlos Pastore e outros, que a presença dos colonos em massa, até a prefeitura, correria grave perigo, pois, bastaria para representa-los, uma comissão, ficando assentado, assim, que os colonos permaneceriam reunidos na praça fronteira ao edifício da prefeitura, enquanto que a comissão escolhida entender-se-ia não só com ele prefeito, como também com os membros da Câmara Municipal, que seriam especialmente convidados pelo prefeito, ficando mesmo aprazado que dita reunião verificar-se-ia às 14 horas daquele dia.

Mal a comissão se aproximava da porta da prefeitura, o prefeito Oscar Hampe, exasperando-se, agride um dos presentes, de revolver em punho, dando com a coronha na cabeça de um dos colonos e, em seguida o delegado de polícia Armindo Cesa, sai precipitadamente do interior da prefeitura, acompanhado de praças do destacamento da Brigada, armados de fuzil, ocasião em que cerrado tiroteio se fez sentir, do qual resultou na morte do delegado e do colono Antônio Perosa.

Incessante confronto puseram em fuga, verdadeiramente apavorados, todos os colonos, os quais corriam em direções varias, procurando abrigar-se das balas de fuzis e revolveres, respectivamente empunhadas pelos praças que se achavam de prontidão, pelo prefeito Oscar Hampe e seus demais companheiros, ali reunidos. Quando procurava fugir do tiroteio, foi alvejado pelas costas o senhor Ângelo Bolsoi, que tombou gravemente ferido. Pedro Pastore, juntamente com Vitório Meneguzzi, menor de 18 anos, procuravam amparar Bolsoi, quando deles se aproximou o Dr. Oswaldo Hampe, acompanhado de seu motorista, Eduardo Deluchi, ambos de revolver em punho, tendo Hampe descarregado a sua arma contra o menor Meneguzzi que, mortalmente ferido, arrastou-se ate a porta da casa comercial Grazziotin, onde exalou o ultimo suspiro. Simultaneamente, Eduardo Deluchi fuzila pelas costas o colono Pedro Pastore, que tombou em plena rua. A seguir o Dr. Oswaldo Hampe, não satisfeito, ataca e descarrega o seu revolver contra o agente consular Luiz Angelini, indefeso velhinho, desfechando-lhe quatro ou cinco tiros, dos quais três atingiram o alvo, causando-lhe ferimentos de natureza grave.

Já na versão oficial de Oscar Hampe, remetida ao Comandante da Brigada Militar do Estado, Coronel J. Canabarro Cunha, narra que o inicio do confronto teria partido dos agricultores.

Em telegrama ao Comandante Oscar narra o confronto da seguinte forma:

 “Era uma luta a tiros de muitos homens da colônia, contra uns poucos que se encontravam no prédio da Prefeitura Municipal em pleno centro da cidade. Os projéteis roçavam o corpo de um Oscar Hampe que, sereno, com um revolver em cada mão retribuía aos tiros, aos muitos que lhe eram destinados e também um Oscar Cesa, com a mira do revólver arrancada por um projétil que, assim se desviando, tinha-lhe poupado à existência. Quem nesse instante estivesse na Praça Garibaldi e de longe a visse sob qualquer ângulo, haveria de ver, sem dúvida alguma, um quadro de tristeza real, de melancolia, uma quase que hecatombe que se abatia sobre a outrora pacata vila de Antônio Prado.
Feridos e mortos espalhados por diversos pontos da praça, gente disparando, gente apavorada, uns lutando a tiros, brigadianos valorosos a defenderem o Prédio da Intendência, enfrentando os afazeres de uma luta que se estendia até a esquina da Rua da Paz, hoje Av Valdomiro Bocchese, com a citada praça.”


A descrição acima mostra a história oficial e conhecida. Mas os reais culpados pela morte dos três agricultores e do próprio delegado não foram esclarecidas por sua totalidade. Os motivos podem ter sido o aumento dos impostos, mas também há indícios de motivação religiosa, étnica e politica. “Sobre os incidentes pode-se afirmar que não passaram de exaltação momentânea. Os que morreram foram vítimas de um infeliz acaso. Os colonos, os revoltosos ou os assaltantes, têm tanta responsabilidade pelo acontecido quanto aos que os acusam”, finaliza Valdemir Guzzo em seu Livro Antônio Prado.


Os três agricultores: Pedro Pastore, Vitório Meneguzzi e Antônio Perosa eram moradores da Comunidade de São Pedro, Linha Trajano, Nova Roma do Sul.

Hampe precisou administrar as consequências de uma administração disputadíssima em que o confronto situação e oposição se estenderam até o fim de seu mandato.

Fixada em frente a prefeitura, uma placa de bronze lembra o fato e presta homenagem ao delegado.
Em nenhum local foi prestado homenagem aos três agricultores mortos.

Livro Antônio Prado, de Valdemir Guzzo*

Pesquisa e Redação Jornalista Ronei Marcilio – Grupo Solaris de Comunicação

*Guzzo é formado em Filosofia e especialista em História Regional pela Universidade de Caxias do Sul – UCS e tem Mestrado e Doutorado em Educação pela Universidade do Vale dos Sinos – Unisinos.


Opnião dos Leitores
  1. Gilberto domingos Rampon   Em   julho 10, 2020 em 3:29 pm

    Para se fazer Justiça na cidade os colonos mortos deveriam ser lembrados ,pois buscavam os seus direitos de justiça já que eram cumpridores de seus deveres

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